Imagine, se quiser, este cenário. Você está dirigindo um carro com seu filho ao lado. Rápido demais, você deixa de ver os sinais de trânsito, resultando em um acidente que deixa seu filho gravemente ferido. Os médicos fazem o que podem e dizem-lhe que, a menos que seu filho se submeta uma série de caras cirurgias, ele vai levar uma vida muito prejudicada. Neste ponto você: (a) se recusa a acreditar nos médicos, dizendo que seu filho vai ficar bem sem as cirurgias, ou (b) diz aos médicos que está disposto a pagar para salvar os olhos de seu filho, mas não as pernas, porque você só quer abrir mão de 5% de sua renda, ou (c) vende a sua casa, arranja um segundo emprego e faz o que for preciso para garantir que seu filho tenha a melhor chance possível de uma vida normal?
É difícil imaginar qualquer pai escolhendo outra coisa senão a opção (c). No entanto, quando se trata de mudança climática, o discurso público é sobretudo determinado nos termos da opção (b), com uma minoria significativa escolhendo a opção (a).
A mudança climática é sobre nós, e os custos humanos estão sendo sentidos. O Fórum Global Humanitário, criado por Kofi Annan, estima que a cada ano a mudança climática deixa 300 mil pessoas mortas, 325 milhões gravemente afetadas e perdas econômicas de US$ 125 bilhões. É uma crise silenciosa, afetando principalmente os mais pobres do mundo que menos têm contribuído para o problema. O aumento da temperatura média, por exemplo, faz com que os mosquitos se reproduzam em cidades de maior altitude como Nairóbi, trazendo malária onde ela não existia antes. Seca prolongada e desertificação em Darfur leva ao conflito sobre escassez de alimentos e de recursos hídricos.
A ciência das alterações climáticas é conhecida há pelo menos 20 anos. Apesar da cortina de dúvidas levantadas pela indústria de céticos sobre o clima, a esmagadora evidência está aí para quem quiser olhar, mostrando que a atividade humana está causando o aquecimento global. E as consequências do aquecimento global descontrolado serão terríveis para os nossos filhos e netos - oceanos quase desprovidos de peixes, grandes e históricas cidades litorâneas no mundo sob a água, fome constante e generalizada, acompanhada de guerras frequentes já que a humanidade luta para ter acesso a alimentos e água.
Até agora, o fracasso da maioria das nações numa guerra total às emissões de carbono para o bem do futuro de nossos filhos não pode ser inteiramente responsabilidade do lobby feroz da indústria de combustíveis fósseis. Ele reflete uma visão muito reduzida das nossas responsabilidades. O destino da Terra - com toda a sua antiga e misteriosa beleza, seus frágeis sistemas de apoio à vida para nós e milhões de espécies e de gerações futuras - está sendo negociado por políticos, muitos dos quais prestando conta apenas a seus eleitores e doadores. É um jogo de pôquer onde todos mantém seus cartões perto de seus corações na esperança de que alguém vai pagar mais para que eles possam pagar menos.
Uma nova consciência é necessária: a consciência de que somos parte de uma teia sagrada da vida, dependente e responsável pelo ecossistema que é o planeta Terra. Povos indígenas do mundo entendem isso profundamente. Está incorporado em seu DNA cultural. Para eles, a ideia de que podemos possuir, comercializar e abandonar pedaços de terra é incompreensível. A terra não pertence a nós. Nós pertencemos à Terra, e temos a responsabilidade de cuidar dela para o bem dos outros e para as gerações futuras.
Reconhecendo nossa interdependência, precisamos construir a confiança. Em vez de pôquer, um espírito de generosidade com o coração aberto e cuidado com todas as cartas na mesa. A humanidade tem bastante criatividade e engenho para criar um mundo que trabalhe para todos, onde todas as necessidades básicas sejam atendidas e o sucesso seja medido pela forma como vivemos e amamos, e não por aquilo que temos.
Quando nossos filhos e netos olham para trás nesta encruzilhada decisiva da história humana, como nos julgam? Será que nos desprezam pela nossa pequenez e egoísmo, ou será que vão nos chamar, com gratidão e carinho, de "a melhor geração"?
Veja mais em www.iofc.org/climate-change [em inglês]